Sono é questão de saúde pública e requer mudanças de perspectivas e hábitos

Estima-se que 50% dos franceses têm problema todas as noites para dormir. Aumentou consideravelmente o número de centros especializados, na França, em ajudar os pacientes a vencer essa dificuldade. Estudos mostram que os efeitos de dormir mal podem ser mais graves ao organismo do que se pensa: uma das pesquisas mais recentes concluiu que, a longo prazo, o trabalho executado depois das 22h aumenta em mais de 30% a chance de se desenvolver câncer no seio. 

A Agência Nacional francesa de Segurança Sanitária e de Alimentação, Meio-Ambiente e Trabalho divulgou, em 2016, que problemas cardíacos e metabólicos são mais usuais em quem trabalha à noite. Em setembro deste ano, a Fundação Adova e o Instituto francês Ipsos também relataram que 8 em cada 10 franceses interrompem o sono, prejudicando a qualidade do descanso noturno. Indivíduos com rotinas normais, mas que acumulam o déficit de sono, estão mais sujeitos à depressão e à perda de memória. O que explica isso é o fato de o sono consolidar tudo o que se aprende durante o dia, conforme afirma Marc Rey, médico francês do Centro do Sono de Marselha e autor do livro “Quand le sommeil nous éveille” (Quando o sono nos acorda). 

Para Marc, o sono foi considerado, ao longo dos anos, como uma perda de tempo para a sociedade. Enfrentar essa questão é essencial, pois é preciso discutir as atividades profissionais em horários noturnos ou que iniciam muito cedo e, também, para que haja mais flexibilidade no trabalho com os trajetos de cada funcionário (o trânsito é cada vez mais intenso nas grandes cidades, fazendo com que acordem horas antes). Melhorar a qualidade do sono exige que se prepare o corpo para repousar: comportamento inviável a grande parte das pessoas, que chegam tarde do emprego ou precisam continuar suas atividades quando retornam. “Quanto mais respeitarmos o ritmo biológico, teremos menos problemas de sono. O ritmo imposto pela sociedade é muito diferente do ritmo biológico normal”, alerta Rey. 

A luz é outro ponto fundamental para regular o hormônio do sono, denominado melatonina. A invenção da luz artificial, segundo Rey, liberou o homem de um ritmo de vida organizado em função do sol, dando a opção de introduzir suas atividades em novos horários, mudando o padrão de descanço. Em tempos modernos, qual a solução para melhorar o sono sem sacrificar as relações sociais? 

“As pessoas precisam compreender como o sono é importante. Para muita gente, dormir sete horas basta. Isso depende das pessoas. Algumas precisam de sete, outras de nove e outras de seis. Não somos todos iguais em relação ao sono”, destaca o especialista. Segundo ele, as férias são a época em que se pode ter uma noção real da quantidade de sono necessária, o que sofre influência da estação do ano. No verão, com dias mais longos, as pessoas dormem menos; no inverno, o corpo já requer mais tempo de repouso. 

Durma no fim de semana 

Marc Rey ressalta que, no outono e no inverno, os fins de semana sejam de descanço. Ademais, as férias nesse período são imprescindíveis para que o organismo se recupere. O especialista recomenda que se organize o ritmo de sono, sem utilizar esse tempo como uma variável que se ajusta às atividades. Isso significa, por exemplo, que uma pessoa que gosta de acordar cedo deve recusar um trabalho noturno, a fim de respeitar seu tempo biológico. 

 Caso não tenha escolha, sugere as chamadas “sestas flashs”, ou seja, um desligamento durante o dia sem cair no sono profundo. Basta fechar os olhos por dez minutos. O número de sestas relâmpagos depende do ritmo laboral e da qualidade do sono à noite. Na visão de Rey, mulheres que trabalham e têm filhos pequenos dormem mal de modo geral. O especialista questiona por que é socialmente mais aceitável sair para fumar um cigarro do que pausar para dormir: “Tentamos, justamente, mudar o olhar da sociedade sobre o sono”. 

Associação auxilia pais e filhos a dormir melhor

Você já ouviu falar na rede Morfeu? É uma associação de utilidade pública, situada em Paris, que engloba uma equipe multidisciplinar financiada pela Agência Nacional de Saúde francesa. Conforme sua presidente Sílvia Royart pontuou, a finalidade é auxiliar os pacientes que sofrem de distúrbios como insônia crônica (corresponde a 70% dos casos atendidos) ou doenças mais graves (apneia do sono). A associação lançou, recentemente, um site com enfoque no sono entre 0 e 18 anos, tornando-se referência para pais que procuram soluções para ajudar seus filhos a dormirem mais, por meio de um fórum ativo moderado por um profissional.

Dormir é algo que se aprende e, infelizmente, poucos especialistas têm habilidade para intervir e colaborar com as famílias. A criança, para cair no sono, precisa se sentir segura, segundo afirma Sílvia Royart: “Há provavelmente um tipo de comportamento dos pais que vai favorecer essa insegurança. Às vezes o problema é o excesso de proteção, que impede a criança de desenvolver sua própria autonomia. Esse medo da noite, provavelmente, vai continuar mais tarde”. 

Os distúrbios do sono têm provável origem genética; no entanto, as pesquisas ainda buscam compreender por que algumas pessoas simplesmente são incapazes de dormir. “A experiência do sono é individual. Você pode preencher todas as condições necessárias e continuar dormindo mal. Depende da sua capacidade de interagir com o sono, e de se desligar de fato do dia a dia ou não. Há também a capacidade de gerenciar suas emoções e de superá-las”, acrescenta Royart. 

 

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